23/jan/2019

Crítica: “Creed 2” usa a fórmula de sempre, mas a emoção continua genuína

Sylvester Stallone pode ter construído uma carreira sólida em cima do cinema de ação e criado esta imagem do brucutu que ficou tão marcante – ainda que a maioria dos filmes não fossem lá essas coisas. Porém, seu maior legado para a Sétima Arte foi com o personagem Rocky Balboa. O astro desenvolveu a ideia, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator pelo primeiro filme de 1976, e o longa abocanhou a estatueta principal da noite levando o prêmio de Melhor Filme.

Desde então, nasceu no cinema um subgênero: os filmes de boxe. Até hoje eles são lançados, e todos bebem de um jeito ou de outro da fonte de Stallone com Rocky. Foi ele quem criou os clichês mais usados nesses filmes. Dirigiu 4 de 6 longas-metragens onde o pugilista é o protagonista, influenciou centenas de genéricos mas nenhum conseguiu o sucesso, e a fama de Rocky. Exemplo disto é a cidade da Filadélfia – cenário dos filmes e terra natal do personagem – que abraça avidamente o legado deixado por Stallone. As escadarias do Museu de Arte são a maior atração da cidade – mais do que o próprio museu – e a estátua de Rocky continua lá, exposta e visitada por milhares de pessoas ao ano.

Com “Creed”, lançado em 2015, o universo de Rocky Balboa é revisitado agora sobre outros holofotes, mas sem deixar a importância do icônico personagem de lado. A ideia de Ryan Coogler – diretor e também roteirista do primeiro filme -, foi genial ao conseguir encontrar uma brecha para trazer o filho bastardo de um dos personagens mais amados da franquia, Apollo Creed (morto no ringue em “Rocky IV”), e colocar Rocky como o mentor e treinador improvável do seu filho. O longa foi um sucesso de crítica e rendeu a Stallone sua segunda indicação ao Oscar pelo mesmo personagem – agora de Melhor Ator Coadjuvante.

“Creed” tinha muitas semelhanças com o primeiro filme do Rocky, e segue aquela tendência atual de realizar uma reboot mas sendo, na realidade, uma continuação. A diferença é que os clichês podem estar lá, a estrutura narrativa pode não sair do padrão já conhecido dos filmes anteriores, mas a visceralidade com que Clooger narra a história, e filma as lutas, junto com a emoção presente na trajetória dos personagens, principalmente na de Rocky – agora velho e com câncer -, fazem da obra um marco na história da franquia além de abrir possibilidades para tornar o protagonista Adonis Creeed o Rocky da nova geração. Com a benção, claro, do próprio influenciador.

Em “Creed 2” temos o retorno de outro personagem famoso dos antigos filmes: Ivan Drago (Dolph Lundgren) – sim, o responsável pela morte de Apollo Creed que está em busca de recuperar o prestígio na Rússia que foi perdido após perder para Rocky Balboa. Para isso, Drago treina fervorosamente o seu filho, Viktor Drago (Florian Munteanu), e semeia a discórdia para conseguir uma luta com Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do adversário que matou no ringue.

A trama de “Creed 2” não foge dos clichês habituais da franquia. Mas o que torna o filme tão envolvente e marcante é justamente o fator nostálgico e emocional presente por causa da nossa identificação com os personagens. Como filme separado, a obra é empolgante e narra com solidez e ritmo sua história, mas para os fãs da franquia, ou quem já assistiu aos filmes antigos e tem um pouco de conhecimento sobre quem é quem naquele mundo, a experiência é muito mais gratificante e memorável. Afinal, estamos falando de um filme que realiza uma revanche de gerações: o confronto entre os filhos de Ivan Drago e Apollo Creed com o primeiro de treinador e do outro lado Rocky Balboa também de treinador, ou seja, é uma revanche dupla, tanto de Drago por ter perdido para Rocky no quarto filme, quanto para Adonis que teve o pai morto no ringue pelo pai do seu adversário. Pura emoção!

Ryan Clooger sai da direção e fica apenas como produtor – estava ocupado com “Pantera Negra”. Quem assume o posto é Steven Caple Jr. que realiza um trabalho competente mas sem ter aquela criatividade cênica de Coogler em certas cenas. Mas as lutas continuam bem filmadas, o final é uma apoteose de emoções e vibrei como se estivesse acompanhando uma luta de boxe ao vivo.

Senti apenas falta de maior desenvolvimento da história de Rocky, que recebe um desfecho tocante ao lado de um personagem importante do filme lançado em 2006. Mas a trama deixa brechas para o seu retorno. Já Adonis Creed é quem ganha maior profundidade com responsabilidades que vão além do boxe. Algo que o próprio Rocky já passou nos longas anteriores e acredito que todos nós vivenciamos na vida. Destaque para as ótimas atuações de Michael B. Jordan e Tessa Thompson.

“Creed 2” mantém a nostalgia viva de uma das franquias mais marcantes do cinema ao mesmo tempo em que constrói o legado de outro personagem. Assista na melhor tela, com o melhor som possível. E vibre com cada porrada de emoção proporcionada por este ótimo filme, que apesar de não superar o primeiro, consegue prender nossa atenção do começo ao fim. Recomendado!

Creed 2-EUA

Ano: 2018 – Dirigido por: Steven Caple Jr.

Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson

Sinopse: Adonis Creed (Michael B. Jordan) saiu mais forte do que nunca de sua luta contra ‘Pretty’ Ricky Conlan (Tony Bellew), e segue sua trajetória rumo ao campeonato mundial de boxe, contra toda a desconfiança que acompanha a sombra de seu pai e com o apoio de Rocky (Sylvester Stallone). Sua próxima luta não será tão simples, ele precisa enfrentar um adversário que possui uma forte ligação com o passado de sua família, o que torna tudo ainda mais complexo.