23/jan/2019

Crítica: “Green Book – O Guia” mostra uma amizade improvável que nasceu das diferenças

O cinema é uma arte sublime. Um meio capaz de nos transportar ao mesmo tempo para universos diferentes e também viver, e conhecer, histórias que são o reflexo do nosso mundo. Em “Green Book – O Guia” temos uma situação inusitada. A história real de uma amizade que começou durante uma viagem pelos EUA entre dois indivíduos totalmente diferentes, tanto em personalidade quanto em cor de pele e cultura.

Tony Vallelonga, ou Tony Lip (Viggo Mortensen), era um norte-americano descendente de família italiana que morava em Nova York e trabalhava como segurança de um clube noturno, além de ser conhecido como “o faz de tudo”. Hábil para resolver problemas, é contratado como motorista por um pianista negro chamado Don Shirley (Mahershala Ali) durante uma turnê no sul dos EUA nos ano 60 – uma época onde o preconceito e a divisão de lugares por cor era bastante predominante. Durante a viagem que durou 8 semanas, a amizade entre ambos nasce das diferenças e da completude que elas trazem para cada um.

Shirley era considerado um gênio da música. Começou a tocar piano aos dois anos de idade, com três era responsável pelo órgão da igreja e aos nove iniciou as aulas de teoria musical. Quando completou 18 anos fez seu primeiro concerto com o Boston Pops. Shirley não era fã de improvisações e não gostava de ser chamado de entertainer ou músico de jazz. Mudou o rumo da carreira ao investir na música clássica, espiritual e teatro musical em uma época onde os cantores negros eram, majoritariamente, relacionados ao blues e jazz.

Em determinada cena com dois encanadores negros, Lip mostra ter um preconceito enraizado, fruto de seu tempo, mas não chegava a desrespeitar. Aliás, não aceitar que as pessoas fossem maltratadas é uma das características apresentadas pelo filme e também defendidas pelo filho real de Lip durante uma de suas entrevistas. A viagem com Shirley, que durou quase um ano – e não apenas dois meses como mostrado no longa-metragem -, foi essencial para mudar em muitos aspectos a percepção de Lip para com os negros. Ao mesmo tempo em que sua personalidade impulsiva, porém, honesta e leal, foram importantes para Shirley.

Dirigido por Peter Farrelly – que sempre trabalhou com o irmão Bob em filmes de comédia, alguns clássicos como “Debi e Lóide” e “Quem Vai Ficar com Mary?” – faz aqui sua estreia como diretor solo e também assina o roteiro ao lado de Brian Hayes Curry e do próprio filho de Tony Lip, Nick Vallelonga. Com uma sensibilidade dramática que nunca permite que o filme se torne um melodrama exagerado ou arrastado, o uso do humor é importante tanto na relação dos protagonistas quanto na identificação do espectador com as personagens. É um humor sutil que nunca interfere no peso dos temas sociais abordados, e favorece muito na emoção de acompanhar uma amizade verdadeira nascer entre duas pessoas completamente improváveis. É um balanço bem realizado.

O nome “Green Book” refere-se ao Livro Verde que era um guia para negros distribuído nos EUA durante os anos 60, e tinha listas de hotéis, restaurantes, motéis e outros lugares onde eles poderiam parar, comer e ficar sem o risco de retaliação ou expulsão. O filme não apenas explora questões relacionadas ao racismo, dentro de sua trama o roteiro trabalha com estereótipos culturais, solidão e não deixa de lado a visão otimista de uma sociedade que mesmo em meio a segregação possui pessoas solidárias com bons olhos e respeito, independente da cor ou cultura.

“Green Book”  vem recebendo muitas comparações com outro clássico do cinema, o sucesso ganhador do Oscar de Melhor Filme em 1990, “Conduzindo Miss Daisy” (1989). Neste último, um afro-americano trabalha como motorista para uma senhora judia no ano de 1948, e ao longo da viagem, a amizade entre ambos só cresce com as diferenças, e preconceitos são quebrados. As semelhanças são nítidas, claro, e “Green Book” parte do mesmo conceito. O curioso é que nesta história de Lip e Shirley o que temos é o inverso: o motorista é branco e o seu patrão, um musicista negro.

Com atuações sublimes de Viggo Mortensen e Mahershala Ali – principalmente Viggo, que é um desses atores camaleões -, “Green Book – O Guia” não apenas é um dos melhores feel good movies do ano, como é um ensino sobre aceitação, respeito e valorização do ser humano como ser humano, sem distinção de cor, cultura ou classe social. Um delicioso road movie que fica marcado na memória. Recomendado!

Indicado a 5 Oscars: Melhor Filme, Melhor Ator (Viggo Mortensen), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Roteiro Original e Melhor Edição.

Green Book-EUA

Ano: 2018 – Dirigido por: Peter Farrelly

Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini…

Sinopse: 1962. Tony Lip (Viggo Mortensen), um dos maiores fanfarrões de Nova York, precisa de trabalho após sua discoteca, o Copacabana, fechar as portas. Ele conhece um um pianista e quer que Lip faça uma turnê com ele. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam.