29/jan/2019

Crítica: “Vice” tem Christian Bale como o ex-vice-presidente dos EUA, Dick Cheney

“Vice” é um filme que serve para dizer em auto e bom som – junto com ótimas imagens e atuações – que quem na verdade mandou nos EUA durante os anos de 2001 e 2009 não foi o então presidente George W. Bush, mas sim, seu vice, Dick Cheney.

Dirigido por Adam McKay, da excelente comédia “O Âncora” e do fenomenal “A Grande Aposta” – que levou o Oscar de roteiro original -, neste ano o diretor embarca em outro projeto político, agora totalmente dentro deste mundo, que é “Vice”. A trama acompanha a trajetória de Dick Cheney até ele se tornar vice-presidente dos Estados Unidos no governo de George W. Bush filho.

Colocando opiniões políticas de escanteio, é inegável a competência persuasiva, e imponente, de Cheney diante do jogo político norte-americano. Ao mesmo tempo em que McKay reconhece sutilmente este lado do político, por outro, o uso do humor é a força motriz para o olhar cínico, e irônico, de McKay para com o ex-vice-presidente. Só que o equilíbrio entre sua opinião com o relato do filme é tão sutil, e equilibrado, que “Vice” é uma obra que causa boas impressões para os apoiadores de Cheney, repulsa para os detratores, porém, em ambos os casos nos faz reconhecer o talento político do sujeito –  para o bem ou para o mal.

O roteiro, como acontece em “A Grande Aposta”, se utiliza de uma edição rápida com cortes ligeiros e interseções explicativas para nos apresentar, da maneira mais fácil possível, todos os trâmites daquele mundo político. Ainda que não tenha o nível criativo visto em “A Grande Aposta”, este estilo de narrativa desenvolvido por McKay é engajante, divertido e torna um assunto muitas vezes chato (política) em algo palatável e interessante para o grande público.

Daí chegamos ao elemento de maior destaque neste filme: Christian Bale e sua surpreendente transformação física (o ator engordou muito), e com ajuda de maquiagem (próteses), para se tornar Dick Cheney. Apesar dos sacrifícios diários na sala de maquiagem, geralmente papéis deste porte chamam a atenção e agregam muitos prêmios – Gary Oldman foi o mais recente e ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua atuação como Winston Churchill em “A Hora Mais Escura”. Bale segue o mesmo caminho: já levou o Globo de Ouro, Critics Choice e até o dia em que esta crítica foi postada, segue como um dos favoritos ao Oscar de Melhor Ator.

Bale, como sempre, é um ator comprometido, denso, e sabe trazer profundidade e humanidade aos papéis. Como Cheney, a maquiagem não sobrepõe ao ator e ambos trabalham em mútuo acordo. Ele está excelente, sua química com Amy Adams (que interpreta a esposa de Cheney, Lynne) é muito boa e sua interação com Steve Carrell (que interpreta Donald Rumsfeld, ex-Secretário de Defesa dos EUA) é outro ponto alto do longa. Só acho que Bale exagera um pouco, em alguns momentos, na mania de Cheney de entortar a boca quando fala – mas nada que desmereça seu incrível trabalho.

Republicano conservador, a favor da Guerra do Iraque – na qual venceu duas, uma como vice-presidente na época de George W. Bush filho e outra quando foi Secretário de Defesa no governo de George Bush pai, em 1991 -, e empresário do ramo de petróleo, Dick Cheney foi um dos políticos de maior influência e poder administrativo dos EUA, um poder que nunca um vice-presidente teve na história.

“Vice” acerta por não abusar das críticas pessoais e contar a trajetória de Cheney com o dinamismo narrativo de McKay e sua criatividade em conseguir unir política com humor inteligente e sagaz.

Indicado a 8 Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Adams), Melhor Ator Coadjuvante (Sam Rockwell), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Cabelo e Maquiagem.

Vice-EUA

Ano: 2018 – Dirigido por: Adam McKay

Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell…

Sinopse: Na juventude, Dick Cheney (Christian Bale) se aproximou do Partido Republicano ao ver na política uma grande oportunidade de ascender de vida. Para tanto, se aproxima de Donald Rumsfeld (Steve Carell) e logo se torna seu assessor direto. Com a renúncia do ex-presidente Richard Nixon, os poucos republicanos que não estavam associados ao governo ganham imediata importância e, com isso, tanto Cheney quanto Rumsfeld retornam à esfera de poder do partido. Décadas depois, com a decisão de George W. Bush (Sam Rockwell) em se lançar candidato à presidência, Cheney é cortejado para assumir o posto de vice-presidente. Ele aceita, mas com uma condição: que tenha amplos poderes dentro do governo, caso a chapa formada seja eleita.